terça-feira, 7 de outubro de 2008

Medo do Chinês


Era sábado. Mais um dia normal de trabalho em Angola. Fui à obra acompanhar a vistoria de mais uma casa juntamente com o cliente. A visita correu normalmente, nada fora do normal, os problemas de sempre.

Ao sair, encontrei com o Mário, motorista de um engenheiros da empresa e lhe pedi uma boleia (carona) de volta até o escritório. No caminho, pelas ruas de Luanda Sul, área nova da cidade, cruzamos com caminhões carregados de areia, burgal (brita), cimento e concreto que imprimem alta velocidade como se fossem os donos das vias. E realmente são, pois diante do peso e da rapidez com que conduzem, todos saem da frente. São demonstrativos da alta velocidade do desenvolvimento do país e da construção civil que modifica diáriamente a paisagem.

E para enfrentar esse ritmo desenfreado da construção, muitas são as nacionalidades dos profissionais trabalhando em Angola: brasileiros (aos montes), portugueses herdeiros da época da colonização, espanhóis em menos quantidade e chineses,esses aos milhares, trabalhando como formigas, todos os dias...de dia e de noite.

É interessante ver essa mistura de cultura e costumes acontecendo em tempo real, aqui, na nossa frente. Nas obras, chineses, angolanos e brasileiros interagem sem ao menos falar a mesma lingua. Mas todos se entendem e o trabalho vai rendendo.

E assim iamos nós, voltando para o escritório...de repente a nossa frente aparece um trator, daqueles enormes, aparentemente novo mas com a tampa do motor balançando. Me dirigo ao motorista e digo:

-Mário, olha a tampa do motor desse trator como balança! Melhor sairmos detrás dele, antes que esse negócio caia.

E ele me responde:

-Dona Lígia, tenho mais medo é do chinês que está dirigindo o trator.

-Medo? Por que medo, Mário?

-A senhora acha que eles está nos vendo aqui? Com esses olhos apertadinhos, tenho certeza que só vêem metade das coisas!

Me surpreendi com a afirmação dele e tive cuidado para não rir,ainda que essa fosse a minha vontade naquela hora. Ele então me explicou que esse é um dos motivos de piada entre os angolanos e os chineses. Eu lhe recomendei, em tom de brincadeira, que perguntasse a um amigo engenheiro, de decêndencia chinesa, se era assim que ele via. Pois nós, com olhos ditos "normais" nunca saberemos como eles enxergam o mundo.

Toda essa história, me fez lembrar que quando eu era criança achava que quem tinha o olho azul, via tudo azul; quem tinha o olho verde, via tudo verde e assim por diante! Esquecendo a ciência e considerando apenas o lado lúdico da imaginação infantil, quem pode provar que isso não é verdade? Afinal de contas, se você tem o olho castanho como eu, nunca saberá como é ter um olho azul. A não ser que compre lentes de contato. Mas não será a mesma coisa...Essas é apenas uma das viagens que passavam pela minhas cabeça de criança e que de vez em quando voltam à tona. Quais as suas viagens infantis ?
mais uma viagem da Isabela...

Um comentário:

Unknown disse...

Lígia!!!!!!!!!!!!!! Adorei o que vc escreveu e mais ainda pensa a cena acontecendo em tempo real...