quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Letras, emails e identidade

Na minha página do Orkut a mensagem que aparece logo abaixo do meu nome é uma pergunta: "Você conhece a letra do seu namorado? E do seu melhor (a) amigo (a)? Aposto que não !! Mas o email dele você sabe!!"

Essa questão apareceu na minha cabeça quando eu ainda morava em Recife e percebi que das minhas atuais amigas, eu não conheço a letra. Talvez eu me lembre da assinatura de algumas delas que vi na hora de assinar o cheque ou o comprovante do cartão de crédito na mesa do bar ou na loja de roupas. Pode parecer loucura (ou mais uma viagem da Isabela), mas acompanhem meu raciocínio, ou viagem.

Na época do colégio tínhamos muitos amigos, os da turma, os da natação, do inglês, os da rua, da sala ao lado e por ai vai. Mas para mim uma das coisas que diferenciava os mais chegados e especiais era o fato de eu conhecer a letra de cada um deles. Era como se isso transmite a identidade deles sem que eu precisasse ler o nome. Os bilhetinhos no 2ºgrau rolavam soltos, verdadeiros diálogos em plena classe...e ninguém precisava assinar dizendo de quem era aquela fala. Pela letra os diálogos se formavam e eram entendidos.

Hoje a mesma coisa seria impossível. Não conheço a letra de nenhum dos meus mais recentes amigos, ainda que o tempo não seja responsável pela importância de cada um deles. Mas o email da maioria deles ou eu sei de cor ou tenho gravado nos meus contatos. O mesmo acontece com o endereço, ninguém mais escreve carta, então para que ter o endereço? No máximo você sabe como chegar na casa da pessoa.

Essas questões não são novidades e estão na mídia o tempo todo. Mas atualmente dois acontecimentos me fizeram voltar a pensar.

Mudei-me para Angola há dois anos e trouxe comigo um celular abarrotado de números telefônicos e o MSN lotado de contatos, todos misturados sem nenhuma identificação de onde eram ou de que época eles participaram do meu dia-a-dia, virtual ou não.

Passou o tempo e vendi esse celular, resultado: perdi todos os números dos meus amigos no Brasil. Toda vez que chego à Natal tenho que começar uma busca através da agenda velha da minha mãe que guarda o telefone da casa de algumas das minhas amigas. Telefone fixo é mais difícil de mudar, mas e celular? Todo mundo troca de celular o tempo todo, piorando a minha situação para com aqueles de quem eu só tinha o número do móvel (como se fala aqui em Angola). Tento ir à casa de alguém que eu não vejo faz tempo e descubro que a pessoa não mora mais lá...e agora? Será que só me resta esperar que o acaso nos encontre outra vez?

Esse mesmo acaso ajuda quando você ainda freqüenta os mesmos lugares, mora ou passa na mesma cidade que alguém. Do contrário o que fará você encontrar com essa pessoa novamente? Esse é o segundo fato que desencadeou toda essa reflexão, ou viagem.

Lembram-se do meu amigo Juan? O autor da Isabela? Pois bem, estudamos juntos em Madri (2001-2002) e depois cada um seguiu seu rumo, eu de volta ao Brasil e depois pra Angola, ele para Portugal e depois de volta aos EUA. Mas sempre nos encontrávamos no MSN e assim compartíamos a vida cotidiana. Mas de um tempo pra cá, nunca mais vi o Juan online. Que estranho, pensei! Será que ele me bloqueou? Entrei num desses sites que prometem mostrar quem te bloqueou ou excluiu e nada! Fui levada a questionar se algo de mal teria acontecido com ele... e se tivesse? Como eu ia ficar sabendo? Temos poucos amigos em comum daquela época, perguntei a algum deles e ninguém tinha notícias... talvez eu realmente não ficasse sabendo. Até que um dia acessei o álbum virtual dele e comecei “freqüentar” sempre, à espera de uma nova foto, um bom sinal de vida. Até que um dia, pra minha alegria, isso aconteceu. Fiquei aliviada e deixei um recado, tentando restabelecer contato. Não tive resposta durante algum tempo. Até que ontem recebi um email dele, dizendo que as senhas dos emails anteriores haviam sido roubadas e assim ele tinha perdido todos os contatos dele.

Teria o Juan perdido sua atual identidade, se hoje substituímos as letras identificadoras por endereços de email?

E se isso acontecer comigo ou com você um dia? De quem você tem outro contato que não seja o email ou o nº do celular? Se te roubam o celular, a impressão é a mesma, mais ainda recorremos ao email para solicitar que nos enviem novamente os números. E se nesse momento você não tiver mais o email?

Endereços, notícias, letras, bem querer, cuidado, interesse, zelo, talvez não meçam o tamanho da amizade, mas com certeza fazem com que ela tenha uma garantia mais concreta.

mais uma viagem da Isabela....

Nenhum comentário: